Moda Inclusiva – Os relatos de quem espera por ela…

Moda Inclusiva – Relatos simples do cotidiano de mulheres que aguardam atitudes de uma Moda Inclusiva, democrática. Mulheres que não se permitem esquecer de sua vaidade… Que vão a luta por uma independência no vestir, no ato se expressar por meio da linguagem da imagem. Delicie-se com este novo olhar para a Moda.

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Descrição de Imagens: Foto da campanha da grife Wheelie Chix Chic, que cria roupas super estilosas para mulheres que usam cadeira de rodas. Na foto uma modelo cadeirante, loira, cabelos compridos cacheados, sentada na escada de concreto de uma casa antiga. Ela traja um vestido longo estampado em tons de verdes e marrom, um casaco de linha bege e botas marrons. Ao lado da modelo, aparece desfocada, parte de sua cadeira de rodas.

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Recebi o mesmo e-mail de duas pessoas muito, muito especiais – Paulo Romeu do Blog da Audiodescrição (http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/) e Marta Gil ( http://www.amankay.org.br ) – os dois sites são ricos demais! Não deixe de visitar. O e-mail mencionava um texto publicado no Jornal Zero Hora, Caderno Donna, de Porto Alegre.

Sobre tudo que já li, pesquisei, busquei (e tenho muito ainda a aprender, muitas pessoas a ouvir…), este texto é esclarecedoramente o “x” da questão da Moda Inclusiva. Ele responde “o porquê”, “o para quem”,  “o como” e “o quando” fazer uma moda verdadeiramente democrática e inclusiva. Responde da maneira mais viva, mais doce, mais simples e mais real que qualquer texto meu poderia responder. Responde com clareza real! A realidade de quem espera que o mundo fashion dê pequenos passos em sua direção. Pequenos para nós e enormes para gerar independência no ato de se expressar pelo vestir. Tornar esta moda realmente democrática como nós fashionistas pregamos… Leia e se entregue a esse movimento de Incluir. Incluir é legal, justo e faz bem para quem inclui e para quem é incluído. Permita-se conhecer novas realidades e novas necessidades.

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07 de novembro de 2010
Jornal Zero Hora
Caderno Donna

A vaidade de quem não vê

Àqueles de percepção limitada, as cores na cegueira não existem.

De fato, os cegos enxergam um vazio neutro, meio cinza, que não é preto, nem branco. Alguns percebem a luminosidade do dia, caso de Inês Seidler. Outros só sabem que a noite chegou porque o calor do sol foi embora. É assim para a pedagoga Denise Pacheco.

Apesar da restrição visual, eles percebem o mundo colorido. Deliciosamente vivo, como é para outra cega, Andréia Coelho. Denise, Inês e Andréia têm suas cores preferidas: verde, rosa e azul, respectivamente. São vaidosas, gostam de brincos, colares, salto alto e cores… Muitas cores!

Denise conta que seria mais triste se não passasse seu batom vermelho pela manhã, não escolhesse um dos brincos da coleção com 15 peças, e seguisse para o trabalho na Associação Catarinense Para Integração do Cego (Acic). Lá, é conhecida como uma mulher elegante. Foi dela a idéia de fazer o primeiro curso de automaquiagem para cegos em Santa Catarina:

– Foi muito gratificante. Muitas mulheres nunca tinham tocado o rosto. Descobriram-se no curso.

Cega desde os seis anos, Denise gosta do verde porque lembra de uma sandália verde-limão que tinha e amava. A pedagoga defende a autonomia dos cegos. Não acredita que os deficientes visuais precisem de uma moda específica: etiquetas em braille, que possam informar sobre cores e tipo de lavagem necessária à peça, são suficientes.

– Nosso corpo é como o de todo mundo. Cada um deve descobrir como escolhe e guarda suas roupas. Eu costumo fazer cortes diferenciados nas etiquetas para identificar cores. Na hora de comprar, vou pelo tato – diz.

Eliana Gonçalves, coordenadora do curso de Moda na Udesc, concorda com Denise. Acredita que grifes devem investir em peças mais fáceis de vestir, com menos abotoamento:

– A moda deve ser mais funcional para os cegos. Mas esteticamente não tem por que ser diferente. A deficiência visual não os impede de receber informações sobre moda, apenas a consomem de outra maneira.

Eliana desconhece marcas que tenham coleções que levem em conta a deficiência visual, disponibilizando, por exemplo, etiquetas em braille. Ela ressalta que o investimento é alto e envolve a cadeia de produção. Por isso, uma coleção para cegos deve ser bem pensada.

CRISTINA VIEIRA

Descrição de Imagens: Foto da campanha da grife Wheelie Chix Chic, que cria roupas super estilosas para mulheres que usam cadeira de rodas. Na montagem quatro fotos do desfile da grife com duas modelos cadeirantes. Nas duas primeiras fotos, uma modelo loira, com os cabelos presos em um coque elegante e trajando um vestido branco longo. A primeira foto a mostra de frente, corpo inteiro desfilando na passarela e a outra, mostra os detalhes do coque e da gola imponente do vestido de costas. Nas duas últimas fotos, uma modelo morena, cabelos ruivos presos em um coque, trajando um minivestido bege com flores estampadas em vermelho com uma faixa preta abaixo do busto e uma leagin preta. Na primeira foto a modelo aparece de perfil num close de seu rosto. Na segunda aparece desfilando na passarela com sua cadeira de rodas.

Rosa é a cor de Inês

Inês Berlanda Seidler, 31 anos, nasceu cega. Não sabe como são as cores. Mesmo assim, responde rapidamente qual é a cor preferida: rosa. O gosto é influência de Alice, 9 anos, a filha que enxerga perfeitamente. Também uma herança cultural, que tem no rosa a tonalidade destinada às meninas.

A vaidade de Inês é discreta. Gosta de acessórios sem extravagância, como brincos pequenos e colares com pingentes. Para as roupas, costuma usar uma peça de cor forte combinada a outras em tons neutros. Ao tocar os detalhes das peças, sabe a cor das roupas.

– Tenho medo de vestir cores que não combinam. Não é porque sou cega que não vou cuidar da minha aparência – comenta.

Alice é sua consultora de moda, quem diz a Inês se a roupa ficou bonita. Também é a menina quem maquia Inês, basicamente sombra e blush. O batom, a mãe passa sozinha.

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Eu, Lu, complemento registrando que nunca devemos assumir o papel de super heróis que precisam salvar as Pessoas com Deficiência (PcD) de todas as suas dificuldades e barreiras… Não é essa a postura que eles esperam da sociedade. A postura da sociedade deve ser a Inclusão – incorporar em seu dia a dia atitudes e práticas que contribuam para a acessibilidade, o que vai garantir a todos, igualdade de oportunidades – no vestir, na cultura, na educação, na vida profissional. O direito a vida independente e o direito de fazer suas próprias escolhas, precisa ser respeitado. E para isso, conheça novas realidades, novas formas de sentir, de agir… Isso vai gerar novas e ricas possibilidades para todos! Isso é incluir… Divida seu universo com pessoas que têm universos diferentes do seu e pergunte a elas sobre sua rotina, sua vida. Sem medos, sem receios… Simples assim.

Fotos: site http://www.wheeliechix-chic.com

Por Lu Jordão.

 

Autor: Duas Moda & Arte

Um espaço onde se fala em moda, arte, sustentabilidade, dignidade social e moda inclusiva. Amamos misturar moda e toda espécie de arte!

4 comentários em “Moda Inclusiva – Os relatos de quem espera por ela…”

  1. Querida Lú,

    Nem vou mais comentar sua postura em defesa da inclusão das pessoas com deficiência. Se todos tivessem uma fração de seu interesse pelo assunto, certamente a vida seria muito mais fácil para 25 milhões de brasileiros, sei lá quantos mundo afora.

    Desta vez prefiro comentar seu capricho e cuidado com as descrições das imagens. Isto é essencial para que pessoas cegas possam ter acesso a todas as informações, não apenas aos textos. E não demora muito você vai se tornar uma descritora profissional: as descrições estão ficando cada vez melhores!

    Grande abraço: Paulo Romeu

  2. Lu,

    Pois é, você sempre nos encanta e nos surpreende, com suas sacadas rápidas e profundas e seu entusiasmo. Leonardo Boff lembra que a palavra “entusiasmo” vem do grego e quer dizer “Deus em nós” – o entusiasmo traz essa chama, que nos une a algo maior.

    Destaco suas pesquisas – que site legal, esse, de moda para mulheres cadeirantes! Rosangela Berman Bieler, uma carioca de alma cigana, que é referência na área da Deficiência, está sempre bonita e elegante. Quando uma pessoa comentou sobre sua aparência, ela respondeu: Pois é, quero que vejam a mim e não à cadeira.

    Essa frase diz tudo!

    Um beijo, e parabéns!

    Marta

  3. Acho tão bacana, de verdade, todo esse trabalho do Duas Moda!!! Eu adoro ler os textos de vcs e foi através do blog que eu conheci a Orangotango, que adoro!
    Desconhecia essa informação dos cegos sobre as cores!! E essa ideia de criar roupas para cadeirantes é maravilhoa. Afinal, mulher não deixa de ser mulher por causa de uma limitação e que assim elas dão exemplo para outras que estão desesperadas na mesma situação.
    Parabéns!

  4. Lu, a gente só se conhece virtualmente, mas, através dos teus textos a gente pode te ver, te sentir e admirar!
    Um beijo tão grande quanto sua alma!
    Deise

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